Vassil Oliveira
disse em 19/01/08 | 02:34
Eduardo e Marco, não vou nem entrar no mérito do debate para não atrapalhar(só para lembrar, coloquei Tropa de Elite entre os melhores do ano passado). Fica o registro: ler vocês dá uma alegria danada!
Marco A. Vigario disse em 19/01/08 | 02:34
Eduardo, concordo com tudo o que disse sobre Tropa de Elite, exceto com uma coisa: a visão simplista, moralista e eugênica é do Capitão Nascimento, e não do José Padilha. Como Tropa de Elite é filmado em primeira pessoa, Padilha faz uma imersão no ponto-de-vista do Capitão. Mas isso não quer dizer que endosse a visão de mundo do personagem.
Nascimento é um homem à beira de um colapso de nervoso, sem amigos, um homem que perde a famÃlia e que, mesmo quando tenta fazer a coisa certa (recuperar o corpo de um filho para a mãe), só produz mais e mais corpos. Ou seja, seu discurso não se sustenta. Nascimento tem a missão de escolher um substituto porque não aguenta mais o Bope. É mais uma vÃtima dessa guerra, embora adote um discurso de vencedor. Está racionalizando. Na prática quer mesmo é pular fora da situação.
A tragédia que Tropa de Elite tenta denunciar é que, embora insustentável, a visão de mundo de Nascimento se reproduz e sobrevive com a ascensão de André, um rapaz gente boa que, de tanto levar pancada, se converte à idelologia do Bope. A cena final de Tropa de Elite mostra o substituto de Nascimento com uma arma apontada para a câmera, ou seja, para o espectador. A mensagem é clara: um alerta para o risco de a polÃcia se voltar contra a sociedade.
A Veja, com a capa sobre Tropa de Elite, aproveitou-se da situação para fazer uma leitura enviesada do filme. Muita gente adorou, porque a verdade é que muita gente se identifica com Nascimento. Mas isso é um problema dessa gente. Não é a intenção do José Padilha. Na entrevista que ele deu ao Roda Viva comparou a situação com uma fotografia famosa - Martin Scorsese com as mãos na cabeça depois uma sessão de Taxi Driver (ele não consegue acreditar no acaba de ver: a platéia delirando com o personagem doente criado por ele e interpretado pelo Robert De Niro). É uma coisa a que se está sujeito. O autor não manda no significado da obra depois que ela ganha as ruas. Está sujeito a todo tipo de interpretação.
Mas não precisa ir longe. Tropa de Elite é baseado num livro que tem como co-autor o Luiz Eduardo Soares. Esse cara, você sabe, é o mesmo que denunciou a existência de uma "banda pobre" na polÃcia quando era secretário de Segurança do Rio de Janeiro. Que interesse ele teria em produzir uma obra que defendesse a truculência da polÃcia?
Outra coisa: José Padilha. O filme anterior do cara é Ônibus 174, documentário que resgata a história de vida de um sequestrador morto pela polÃcia. Ônibus 174 denuncia a incompetência da polÃcia para lidar com uma situação de risco. Na contra-corrente do senso comum, investiga várias facetas da vida do criminoso, humanizando-o. Padilha foi acusado de defender bandido na época. O que ele fez, porém, foi mergulhar num episódio trágico e revolver o seu substrato. Trouxe à tona aspectos que horas e horas de reportagens não conseguiram revelar. Tornou nosso julgamento infinitamente mais complexo e difÃcil.
Não é subestimar a inteligência desses caras dizer que eles querem simplesmente defender policial agora? Que aprovam sem ressalvas a forma como a criminalidade vem sendo combatida no Rio de Janeiro?
Dizer que o filme de Padilha endossa a visão do Capitão Nascimento é como dizer que Camus endossa a visão de Mersault em O Estrangeiro. O que ambos fazem é mergulhar radicalmente no universo de seus personagens para mostrar as distorções e o vazio que há neles. Só isso.
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