29/07/07 - Domingo
Análise Política
ACM foi mesmo o último coronel?
Foto: Paulo José |
 |
| Marconi Perillo e Iris Rezende: coronéis à moda antiga |
Com a morte de Antonio Carlos Magalhães, vários jornais estamparam como manchete: "Morre o último coronel". Será? O que dizer de José Sarney (Maranhão e Amapá), Joaquim Roriz (Distrito Federal) e Siqueira Campos (Tocantins)? Embora estejam mais em baixa do que em alta, não perderam a aura de coronéis. E o que dizer dos pós-modernos? Ciro Gomes e Tasso Jereissati (Ceará), Blairo Maggi (Mato Grosso), Aécio Neves (Minas Gerais) e Roberto Requião (Paraná)?
E, claro, Goiás não está de fora: Iris Rezende e Marconi Perillo estão aí politicamente vivíssimos.
Coronéis como Marconi e Iris ainda existem - e outros estão nascendo - por uma simples razão: é esse o desejo do eleitor e dos próprios políticos. Enquanto esse desejo não morrer, o caldo de cultura também não finda.
O eleitor - muitas vezes à procura de um segundo pai - encontra no político centralizador e dominador sua melhor referência. Não é por acaso que muitos coronéis são associados diretamente à figura paterna. Getúlio Vargas era o "pai dos pobres". ACM era chamado de "paizinho".
Daí também que muitos eleitores - e até jornalistas - enxergam com bons olhos os tais coronéis. É comum ouvir que a Bahia não seria a mesma sem ACM. Ou que Goiás deve muito a Iris e Marconi.
Como se todos esses coronéis subtraíssem dinheiro do bolso ao assumirem o comando de seus Estados. Mas está aí mesmo o segredo dos coronéis: personalizar ações que, na verdade, são feitas pelo Estado.
Se as ruas estão asfaltadas, a maior parte dos eleitores diz que foi obra de Iris. Se existem programas sociais, o mérito é de Marconi. Pouca coisa muda enquanto o eleitor não quiser entender que ações do Estado são impessoais e, portanto, direitos garantidos. Nunca um favor do coronel de plantão.
O coronel é coronel porque geralmente é habilidoso para confundir público e privado. Consegue convencer seus aliados e eleitores de que ele é pessoalmente responsável pelas obras e ações estatais. Não é raro encontrar auxiliares de um governador, por exemplo, que se anulam por completo em função do chefe do executivo.
Iris e Marconi, por exemplo, agem assim. Se algo dá errado na prefeitura, a culpa é do secretário. Se dá certo, o mérito é de Iris. Tanto que poucos conseguem se lembrar do nome de pelo menos três secretários de Iris na prefeitura. Com Marconi, cria de Iris, idem. Quantos secretários de Marconi, em seus dois mandatos de governador, não assumiram ônus que não eram seus?
O coronel também só é coronel porque não tem medo de arriscar. Poucos políticos, em 1998, deixariam uma reeleição tão confortável para a Câmara dos Deputados para concorrer ao cargo de governador e enfrentar o todo-poderoso Iris Rezende. Marconi Perillo foi o único a topar o desafio.
Em 2004, depois de duas derrotas humilhantes para governador e senador, ninguém imaginava que Iris Rezende seria candidato a prefeito de Goiânia. Seria um retrocesso em sua carreira e um risco enorme. Iris se arriscou, acertou e hoje é um forte candidato a governador.
Os coronéis também têm outra característica: não deixam herdeiros. Marconi controlou sua sucessão escolhendo Alcides Rodrigues para ser candidato porque ele só poderia cumprir um mandato, não podendo se recandidatar em 2010, abrindo espaço novamente para Marconi. E, também, porque Alcides tem um perfil completamente diferente dele. Na eleição para a prefeitura de Goiânia em 2004, Marconi forçou a base aliada a escolher Sandes Júnior (PP) nas prévias porque temia que Barbosa Neto (PSB), uma vez escolhido, se tornasse seu concorrente. Já Sandes tem um perfil muito diferente de Marconi. Daí a escolha.
Com Iris dá-se o mesmo. O único nome que ele formou foi Maguito Vilela, que jamais se portou como concorrente à altura. Não chega a ser um herdeiro e, ademais, sempre lhe foi obediente. Iris está na política há mais de 50 anos e, quando se aposentar, não terá deixado ninguém para ocupar seu espaço. Marconi Perillo também não deixou. E nem deixará. ACM fez o mesmo. Assim acontece com todos. No fundo, são narcisistas. Não admitem concorrentes no presente e nem no futuro.
É o narcisismo que faz nascer neles uma característica que, no início, ajuda a dar confiança. Depois, provoca a ruína. Eles adoram bajuladores. Costumam se cercar deles: gente que só elogia e nada critica. Coronel, antigo ou pós-moderno, gosta mesmo é de ser o centro das atenções. Não se conforma com menos. Quando perde o poder, faz de tudo para retomá-lo.
Por tudo isso, o mundo ficaria melhor sem os coronéis. Mas enquanto os eleitores e o próprio meio político não mudarem, os coronéis também não acabam. Se tornam mais modernos, sutis, se adaptam aos novos tempos, mas continuam sendo coronéis.
E o futuro não parece ser melhor: com um mundo cada vez mais narcisista, a tendência é que novos ACMs surjam, em vez de acabarem.
Postado por Eduardo Horácio em29/07/07 às 01:27.
Post com 3 comentários
|
|